ANDRÉS LIEBAN - Animador
Por Fabio Codeço
Este mês, dois eventos trouxeram o foco para a produção audiovisual voltada para as crianças. A 5ª Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis e o Anima Mundi reservaram espaço para a discussão sobre os rumos do mercado e conteúdo especializado nas novas gerações. Animador e presidente da Associação Brasileira de Cinema de Animação, Andrés Lieban esteve nos dois eventos e nos conta o que foi discutido. Ele é diretor do curta-metragem “Como Surgiu a Noite?”, da série Mitos do Mondo, que ficou em cartaz durante o primeiro semestre do Cinema BR em Movimento. O filme, baseado numa lenda indígena, abriu as sessões de “Tainá 2 – A Aventura Continua”. Lieban nasceu em Buenos Aires, mas se mudou para Porto Alegre com os pais aos seis anos de idade, onde se formou em Belas Artes na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ele vive atualmente no Rio onde mantém um estúdio de animação com a esposa, a 2dLab. Diretor de uma dezena de filmes para crianças, Lieban foi integrante da equipe de animação do seriado Aladdin, da Disney. O Cinema BR em Movimento exibe, neste semestre, o curta-metragem Amigão Zão, seu mais novo trbalho, lançado no último Anima Mundi.
| Cine Jornal: Como você começou a fazer cinema para crianças? |
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| ANDRÉS LIEBAN: Durante minha adolescência fiz um curso de animação em Porto Alegre e acabei me envolvendo, mas jamais pensei que fosse ter aquilo como profissão. Fui trabalhar em alguns estúdios, cheguei a trabalhar com o Otto (Guerra, animador gaúcho), desenvolvendo animações para comerciais e curtas-metragens. Mas percebi que o mercado de animação não me dava muitas perspectivas financeiras. A produção demandava um custo muito alto, com equipe numerosa e uma grande estrutura. Comecei, então, a trabalhar como ilustrador e, em 1998, abri o Laboratório de Desenhos com minha esposa. Um tempo mais tarde comecei a sentir falta de animar. Foi quando surgiu o software Flash. Com esta ferramenta percebi que era possível fazer animação de forma barata, que dispensava equipe. Fiz então um filminho chamado “Sinai” e inscrevi no Anima Mundi. Tirei 2º lugar e o filme virou um sucesso. Tive um retorno enorme. Daí comecei a pensar que era possível investir em animação com uma perspectiva comercial. |
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| Cine Jornal: Fale um pouco sobre seu processo de criação. Existe um esforço para se pensar com a cabeça das crianças? |
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| LIEBAN: Não. Acho que o melhor trabalho feito para crianças é aquele em que se fala de igual para igual com elas. Devemos nos agachar e olhar nos olhos, manter o respeito e não subestimar a inteligência deles. O público infantil é muito exigente e sensível e pode se sentir ofendido. |
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| Cine Jornal: Onde você busca inspiração? |
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| LIEBAN: Procuro buscar muitas referências. Vejo tudo que posso. Sempre sou chamado para participar de júri de festivais e me esforço para ver o máximo que puder, conhecer o que está sendo feito. Também procuro ir a eventos que trazem profissionais que trabalham com crianças para absorver suas experiências, como a TVE fez recentemente. Os livros infantis também são referências riquíssimas. O Brasil tem grandes escritores para crianças e as ilustrações dos livros da Ruth Rocha e Maria Clara Machado, por exemplo, são maravilhosas. |
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| Cine Jornal: Tem filhos? |
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| LIEBAN: Tenho, duas meninas. Claro que elas também são uma grande fonte de inspiração. |
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| Cine Jornal: O que você gosta de assistir? |
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| LIEBAN: Adoro a história do Peter Pan. É um exemplo de que uma história para criança não precisa ser óbvia. O autor trabalha num nível de leitura que me interessa, que é o de sugerir, deixando aberto à decisão do espectador. A criança não tem o entendimento direto sobre certos aspectos, certas sutilezas, mas aquilo fica guardado e certamente ela usará aquela experiência em algum momento da vida. Atualmente me chamam atenção os filmes do Hayao Miyazaki (de “A Viagem de Chihiro”), cheios daqueles simbolismos infantis. |
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| Cine Jornal: O mercado de filmes infantis em longa-metragem é dividido hoje por Xuxa e Renato Aragão. Por que vemos tão poucas produções voltadas para o público infantil no Brasil? |
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| LIEBAN: No caso da animação, que é a área que estou diretamente envolvido, existe um estigma de que trabalho para criança é chato. Muitos animadores que vão trabalhar em campanhas publicitárias, por exemplo, acabam fazendo animações dentro daquele estereótipo de personagem ‘fofinho’ e quando partem para trabalhos próprios preferem se afastar da temática infantil para fazer coisas mais agressivas e até escatológicas, como exercício de linguagem. Essa visão tem que ser revertida, para evitarmos que acabe a animação infantil. Fora isso, são poucos os bons roteiristas de temática infantil no Brasil, falta habilidade. E ainda temos um mercado distribuidor preconceituoso com a animação brasileira. É uma questão cultural que precisa ser mudada. |
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| Cine Jornal: Você esteve na 5ª Mostra do Cinema Infantil de Florianópolis. O que foi discutido durante o encontro? |
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| LIEBAN: O grupo presente criou um Conselho para pensar políticas públicas para o setor. Foi proposta uma reserva, com uma cota mínima de verba exclusivamente dedicada para conteúdos infantis, com foco no audiovisual. O grupo ficou de se reunir novamente durante o 4º Festival Internacional de Cinema Infantil, que deve acontecer no segundo semestre. |
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| Cine Jornal: E o encontro do Anima Mundi? Como foi? |
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| LIEBAN: Foram duas mesas no Anima Mundi. A do primeiro dia discutiu novas possibilidades mercadológicas para a animação Brasileira. Foi discutido também um programa de Capacitação de Animadores Profissionais para movimentar o mercado. Estamos prevendo um boom e devemos estar preparados para a demanda. Já no segundo dia os produtores se concentraram na questão da distribuição. Até o Diller (Trindade), diretor dos filmes da Xuxa reclamou do mercado, que dificulta a exibição dos filmes infantis e, principalmente, de animação. |
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| Cine Jornal: Você acha que TV e videogames representam uma barreira à prosperidade do mercado? |
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| LIEBAN: Não. Pelo contrário! Estas são mídias que contribuem e muito na divulgação da produção. |
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| Cine Jornal: Tendo em vista que se trata de um público em formação, você acha que deveria haver certas diretrizes para a criação de conteúdos infantis? |
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| LIEBAN: Com certeza. Mas é preciso cuidado. Inclusive durante os dois encontros este assunto foi muito discutido, mas acabamos chegando à conclusão de que ainda não é a hora, porque medidas restritivas poderiam minguar ainda mais um mercado altamente carente. Mas também não podemos colocar a criança numa redoma se o mundo lá fora nem sempre é amistoso. Eu, particularmente, sou contra evitar falar sobre certos assuntos. Não podemos deixar de falar sobre violência se o mundo está cheio dela. Mas os valores devem ser bem empregados, de forma positiva e educativa. Devemos valorizar o senso de justiça e, principalmente, de esperança. Ficamos de voltar a falar sobre isso em encontros futuros. |
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| Cine Jornal: Algum novo projeto em andamento? |
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| LIEBAN: Estamos desenvolvendo o projeto de um longa-metragem baseado em “A bruxinha que era boa”, da Maria Clara Machado, com direção de Carla Camurati. Mas ainda estamos no desenvolvimento. |
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